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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

Eu quero viver - Nina Lugovskaia


 

A não perder, este diário de uma menina de 13 anos de Moscovo, escrito entre 1932 e 1937 na Russia estalinista.

Publica-se, aqui, o prefácio deste livro soberbo, um documento histório memorável e indispensável a quem gosta de saber sempre melhor, o mundo em que vive ...

http://www.perevod.it/elkost/nina.html

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Capa

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O diário original

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Nina com 11 anos

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Ficha depois de ser presa, em 1937, com a mãe

Prefácio

Vittorio Strada

   Até há poucos anos, até à agonia e morte dos regimes comunistas, em particular do central, soviético, o conhecimento do seu passado e do seu presente era controlado, no seu interior e na sua esfera de influência, ou seja, de hegemonia, pelo poder que neles dominava de modo absoluto: sujeito às directivas ideológicas e propagandísticas de tal poder, este conhecimento não tinha valor científico e era fruto de uma falsificação sistemática. No exterior destes regimes, nos países livres, dedicavam-se a este conhecimento estudiosos de várias tendências, na maioria críticos, senão adversários do comunismo, mas mesmo assim capazes de garantir um quadro da realidade comunista substancialmente verídico, como se confirmou depois da derrocada do sistema soviético.

Além destas duas formas opostas de conhecimento dos regimes comunistas, houve uma terceira, de especial interesse, embora rejeitada e denegrida por quem, nos países livres, concordava com a ideologia e a política comunistas ou com elas colaborava. Tratava-se dos testemunhos de quem vivera sob esses regimes e que, por vários motivos e em diversas circunstâncias, se libertara, fugindo para o estrangeiro: o «caso Kravcenko», logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, é talvez o exemplo que mais deu que falar. Nos últimos anos do regime soviético, quando, depois da morte de Estaline, começou o lento, mas inexorável declínio, surgiram testemunhos provenientes de quem, continuando a viver no seu interior, fazia chegar ao estrangeiro, textos de documentação e denúncia, na sua maioria literários, mas frequentemente também de carácter histórico e político: o grande exemplo é a obra de Alexandre Soljenitsin, cujo Arquipélago de Gulag despertou um movimento de libertação em muitas consciências (em especial em França e, embora menos, em Itália), enquanto suscitava uma campanha hostil da parte da esquerda ocidental. Esta situação, no entanto, já pertence ao passado. Depois de mais de setenta anos de hegemonia Marxista-Leninista e de censura total, o colapso do sistema soviético e suas repercussões em todo o mundo comunista tomou de novo possível realizar no país da Revolução de Outubro uma investigação histórica livre sobre o passado comunista, em colaboração com os historiadores ocidentais, outrora vituperados pelos ideólogos do regime. Embora nestes últimos tempos, em concomitância com a situação política geral do país, se note uma alarmante tendência restauracionista, que funde as nostalgias imperialistas soviéticas com os sentimentos nacionalistas, inaugurou-se na Rússia uma situação historiográfica fecunda, que já deu bons resultados.

Para além das investigações históricas de várias tendências e cores, o acontecimento mais importante da Rússia pós-comunista foi a chamada revolução dos arquivos. (arcbivnaia revoliucia), isto é, a possibilidade de acesso aos materiais conservados nos arquivos do regime comunista, fonte primária do conhecimento de uma realidade, a soviética, que foi ocultada e alterada por décadas de censura e propaganda. É verdade que nem todos os arquivos foram abertos e que, pelo contrário, a sua abertura é cada vez mais controlada, mas, sem dúvida, que a quantidade e qualidade informativa de material que está hoje à disposição dos historiadores são de molde a justificar o termo revolução...Estes materiais de arquivo, novos, preciosos e esclarecedores, podem subdividir-se em duas categorias: a primeira diz respeito ao vértice do poder comunista, ou seja, aos mecanismos de decisão que, num sistema totalitário como o soviético, estavam essencialmente concentrados nas instituições supremas (Comité Central do Partido Comunista e, sobretudo, Politburo), mas que se ramificavam perifericamente em relação às questões menos importantes. O segundo tipo de documentos tem a ver, não com os governantes, mas com os governados, não com o vértice da pirâmide, mas com a sua base, não com os poderosos, mas com os que não tinham poder, isto é, as massas, o povo. Através destes documentos (de especial interesse e valor; por exemplo, os rigorosos relatórios preparados pela polícia secreta para o poder central sobre o estado de espírito dos vários estratos da população, da «opinião pública», digamos, embora tal «opinião» pública fosse e continue até hoje a ser secreta nos relatórios reservados), conhece-se o mundo soviético de um ponto de vista inteiramente novo, o dos submetidos, e abre-se uma nova história do comunismo «de baixo», escutando vozes sufocadas durante décadas. Entre este último tipo de fontes, têm especial importância os documentos que, como os diários, implicam por excelência uma expressão directa de ideias, sentimentos e opiniões; documentos raros, porque, decerto, perigosos para os seus autores se caíssem nas mãos da polícia secreta, mas provavelmente destinados a ver a luz do dia no futuro, em número menos exíguo do que o actual.

Os diários dos cidadãos soviéticos, hoje estudados pelos historiadores, podem subdividir-se em duas categorias: na primeira, incluem-se os de quem aspirava a ser um cidadão soviético exemplar ou, pelo menos, normal, em conformidade não só com as directivas do Regime, mas também com os seus valores comunistas, colectivistas, anti-burgueses, anti-religiosos, etc. Para alcançarem este objectivo, os interessados tinham de desenvolver uma verdadeira operação de auto-educação, para extirparem de dentro de si sentimentos ou «preconceitos» pré-revolucionários (individualistas, por exemplo); o diário tornava-se assim o instrumento de registo deste «exercício espiritual» (político) de auto-purificação. Uma forma semelhante ao diário deste tipo era a chamada «autobiografia», escrita por quem aspirava a ser membro do partido ou que, fazendo já parte dele, mas tendo caído no pecado de alguma «heresia» política (trotskista, por exemplo), queria demonstrar estar emendado e ser de novo um comunista puro. Destas «autobiografias» às «confissões» arrancadas nos processos políticos (nem sempre, nem apenas, com torturas e ameaças, mas muitas vezes também com aquele «paternalismo» do partido que unia monstruosamente o inquisidor e a sua vítima e que levava esta última a uma «sinceridade» suicida, primeiro moral e depois física) e até às falsas acusações contra os amigos, o passo era breve: em qualquer caso, era a linguagem do poder que dominava e triunfava, com uma tal força que se gravava na mente do submetido, destruindo nele o mínimo sinal de autonomia.

Vejamos, por fim, a segunda categoria do diário soviético, aquela que nos interessa e cujas características excepcionais se destacam do pano de fundo constituído por tudo quanto se disse até agora. Trata-se do diário de quem, embora vivendo sob a pressão destruidora do regime, permanecia livre, íntegro e resistente ao terror e horror do poder e encontrava coragem para registar diariamente as suas reflexões. Até pode compreender-se se a pessoa que escreveu o diário é da geração anterior, se foi educada na Rússia pré-revolucionária e não esqueceu a atmosfera de liberdade, pelo menos interior, que respirou. O que surpreende é que o diário seja escrito com plena liberdade de pensamento por uma pessoa jovem, nascida depois da subida ao poder do Partido Comunista; uma pessoa que, além do mais, não se opunha ao regime em nome de quaisquer ideias ilusórias, que podiam ser consideradas um «desvio» no interior da ideologia comunista, mas que era animada por um ilimitado espírito crítico e uma prodigiosa ânsia de liberdade. É este o caso, que se saiba até agora único, do diário de Nina Lugovskaia, aqui oportunamente oferecido ao leitor, pela primeira vez quase na íntegra, pouco depois da sua publicação na Rússia.

Trata-se do «diário de uma estudante», como diz o subtítulo da edição original (o título é Eu Quero Viver.), escrito entre 1932 e 1937 por uma rapariga de nível social modesto, que tinha treze anos quando começou a registar as suas impressões e reflexões. Foi presa cinco anos depois de começar a escrever o diário, o qual constituiu para a polícia política (que sublinhou as frases mais «criminosas» do ponto de vista do regime) a prova da sua «culpa» de anti-soviética e anti-comunista. Assim, a jovem foi condenada e deportada. A mãe e as irmãs mais velhas tiveram a mesma sorte. Quanto ao pai, já estava preso.

O diário desta rapariguinha (um texto que pode comparar-se ao de Anne Frank, vítima de outro sistema totalitário) não é, fundamentalmente, «político»: as anotações de Nina dizem sobretudo respeito à sua vida interior, às suas difíceis relações consigo mesma, com a família e os colegas, os primeiros sentimentos da adolescência, os impulsos para desenvolver a sua personalidade, uma feliz vontade de viver, às vezes contrabalançada por um desespero no limite do suicídio, uma ânsia de liberdade que condena à solidão (e depois à detenção) num mundo que a liberdade ignora e condena, tudo escrito com uma maturidade de análise e um fervor de alma que encantam. Mas o que espanta ainda mais é o facto de Nina intercalar na esfera do privado considerações e apreciações sobre o domínio público, o mundo que a rodeia, o regime e os seus dirigentes, incluindo Estaline. São juízos críticos cortantes, que não são vulgares nem no Ocidente, e que demonstram uma intolerância radical face ao sistema de poder e à realidade social, feitos com uma precisão de diagnóstico e um rigor que não se esperaria de uma pessoa tão jovem, que nasceu e cresceu naqueles anos terríveis da Rússia comunista. Disse-se que o diário de Nina Lugovskaia não é político, mas o que há nele de especificamente político tem muito interesse para o historiador que, além de encontrar no conjunto do texto um documento excepcional sobre a vida secreta mas real da sociedade sob o regime comunista, tem ao dispor testemunhos precisos sobre determinados aspectos importantes da realidade soviética da época. Por exemplo, a 31 de Agosto de 1933, Nina escreve: «Passam-se coisas estranhas na Rússia. Fome, canibalismo...», e prossegue referindo as histórias de quem chegava a Moscovo vindo da província, onde não vão a tempo de recolher os cadáveres nas estradas, devido à terrível fome que, sobretudo na Ucrânia, assolava a população camponesa.

Sabe-se hoje que esta fome foi o resultado, organizado pelas autoridades, da colectivização forçada e violenta dos campos. Este extermínio, que em ucraniano se chama golodomor (morte à fome), foi calado durante décadas pelas autoridades comunistas responsáveis, e, claro, pelos seus apoiantes no mundo. Foi pela primeira vez objecto de um estudo documentado no livro de Robert Conquest, The Harvest of

Sorrow. Os demógrafos russos e ucranianos calcularam que morreram neste genocídio, entre 1932 e 1933, de sete a oito milhões de pessoas. É claro que Nina não podia saber destes números nem da envergadura do desastre, mas o próprio facto de falar dele no diário com um grande desprezo, numa altura em que uma verdadeira «conspiração do silêncio» escondia este crime, é mais um sinal da lucidez política e humana desta estudante, para a qual o regime comunista não podia senão reservar o gulag.

A leitura do diário desta Anne Frank russa permite-nos apreciar um documento humano de rara sensibilidade sobre a formação de uma jovem mulher nas condições extremas de um regime como o soviético, no período da sua apoteose estalinista, e admirar a independência moral e intelectual desta rapariga, a sua prodigiosa capacidade de continuar ela mesma e de não ceder à doutrinação total posta em prática pelo regime, a sua angústia e revolta pela entrega da pátria nas mãos do opressor. Este diário, no qual se misturam o «público» e o «privado», é talvez uma excepção (não sabemos se virão a encontrar-se outros testemunhos análogos), mas é também a confirmação de que a liberdade espiritual não pode ser liquidada mesmo onde a norma é a opressão.

http://www.perevod.it/elkost/nina.html


publicado por apólogo às 20:11

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